Florianópolis: crônica de um colapso anunciado

Entre o esgoto e o Airbnb: do cartão-postal ao colapso sanitário

A narrativa da Ilha da Magia está se dissolvendo, corroída pela realidade crua de uma metrópole insular que engasga com o próprio crescimento. Não se trata mais apenas de reclamar do trânsito na SC-401 ou dos preços exorbitantes no verão. Os dados, quando despidos do otimismo turístico, apontam para uma conclusão matemática sombria: Florianópolis caminha para um colapso sistêmico em um futuro alarmantemente próximo.

Com uma população que saltou para 537.211 habitantes e uma densidade demográfica beirando 800 hab/km², a cidade cresce a taxas superiores a 2% ao ano, absorvendo milhares de novos moradores anualmente enquanto a infraestrutura patina. Enquanto isso, o controverso Plano Diretor de 2023 (Lei Complementar nº 739) funciona como um acelerador de partículas para a especulação imobiliária, incentivando a verticalização em áreas onde a infraestrutura já opera no vermelho. Seguindo o roteiro de Tulum e Mykonos, destinos que sucumbiram ao overtourism e à especulação desenfreada, a ilha catarinense optou por concretar seu futuro em troca de liquidez imediata.

O Sintoma Virose e o Dilúvio

No verão manezinho, a virose tornou-se tão certa quanto o vento sul. Mas não é azar; é biologia. Com índices de cobertura de esgoto que ainda patinam entre 58% e 68% — longe da universalização de capitais próximas como Curitiba —, a cidade normalizou o convívio com coliformes fecais, conforme dados do Ranking do Saneamento 2024 do Instituto Trata Brasil e da CASAN. O desastre da Lagoa da Conceição em 2021, quando uma barragem da CASAN se rompeu, não foi um acidente, foi um aviso prévio.

A situação atingiu níveis críticos quando rios como o Papaquara e o do Brás, no Norte da Ilha, tornaram-se alvos de batalhas judiciais devido ao despejo sistemático de efluentes, condenando a balneabilidade de praias turísticas como Canasvieiras. Quando relatórios oficiais do IMA-SC apontaram que mais de 57% dos pontos de banho estavam impróprios no auge da temporada de 2023, a mensagem tornou-se inegável: o sistema imunológico da ilha falhou.

Para piorar, a vulnerabilidade climática bateu à porta com violência em dezembro de 2022, quando a cidade enfrentou enchentes severas que expuseram a total incapacidade do sistema de drenagem. A supressão de vegetação nativa — cerca de 15% perdida em duas décadas segundo o MapBiomas — eliminou a “esponja” natural da ilha, transformando ruas em rios e evidenciando que a infraestrutura atual não suporta os eventos climáticos extremos que se tornaram recorrentes.

A Armadilha Geográfica e o Aeroporto

A geografia, antes nossa maior defesa, virou nossa cela. O desenho urbano de Florianópolis é uma armadilha logística. Depender de duas pontes e uma espinha dorsal rodoviária (SC-401) para escoar uma população que triplica na temporada é um erro temeroso.

O novo terminal do Aeroporto Hercílio Luz, inaugurado em 2019 com capacidade ampliada para milhões de passageiros ao ano, despeja volumes industriais de turistas em uma malha viária medieval. O acesso ao Sul da Ilha e às praias do Norte trava não por acidente, mas por design — a cidade figura consistentemente entre as mais congestionadas do país em rankings internacionais de mobilidade urbana. Diferente de Bali, onde o caos viário tem raízes culturais, aqui ele é estrutural. Sem opções de rotas de fuga e com um transporte público caro e ineficiente, a ilha para. E caminha para a imobilidade crônica.

A Gentrificação e a Fornalha

Enquanto a mobilidade trava, o mercado imobiliário acelera, amparado pela nova legislação que permite maior gabarito. Com um dos metros quadrados mais caros do país — superando R$ 11.000 em 2024 — e áreas inteiras dedicadas ao Airbnb, estamos concretando dunas e mangues.

O efeito colateral térmico é imediato. A substituição da Mata Atlântica por asfalto e vidro criou ilhas de calor onde a temperatura supera em 3°C as áreas preservadas. A crise hídrica sazonal, reminiscente do “Day Zero” que quase levou a Cidade do Cabo ao colapso hídrico, já é rotina em Florianópolis. A “população flutuante” drena os reservatórios enquanto a CASAN luta para bombear água para prédios que não deveriam existir.

Socialmente, a cidade expulsa seus nativos. A gentrificação empurra a classe trabalhadora para o continente ou para ocupações irregulares em encostas de risco, criando um cinturão de pobreza que serve de combustível para a violência urbana — refletida no aumento de furtos e roubos durante a temporada. As rodovias que conectam a ilha ao continente, já saturadas pelo turismo, tornaram-se palco de uma violência silenciosa: acidentes de trânsito alimentados pela combinação tóxica de infraestrutura precária, fiscalização insuficiente e o fluxo desordenado de veículos que a cidade não foi planejada para absorver.

Colapso Anunciado

Há saída? Tecnicamente, sim. Engenheiros e urbanistas têm a receita pronta: universalização imediata do saneamento via parcerias agressivas, implementação real de transporte marítimo de massa, “pedágios urbanos” para controle de fluxo e uma moratória rigorosa na construção civil em áreas sensíveis. Seria necessário rever o Plano Diretor de 2023, plantar 500 mil árvores e conter o tsunami do Airbnb.

No entanto, a cura exige um capital político e financeiro que Florianópolis não possui. Exige enfrentar o lobby da construção civil, realizar obras impopulares de longo prazo (que não geram votos nas próximas eleições) e admitir que o modelo de “turismo de massa + especulação imobiliária” implodiu.

A infraestrutura da cidade está colapsando sob a própria euforia e imediatismo, mas a resposta oficial se limita a retoques cosméticos e campanhas de marketing sobre a “Ilha do Silício”. Sem uma ruptura drástica, o colapso não é uma possibilidade - é apenas uma questão de tempo.